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AJDS e Escola de Judo Nuno Delgado celebram Protocolo de Cooperação (artigo com entrevista a Nuno Delgado)

Por 27 Outubro, 2020 Sem comentários

A AJDS e a Escola de Judo Nuno Delgado celebraram um protocolo de cooperação que visa o desenvolvimento da modalidade no distrito de Santarém.

Nesta entrevista a Nuno Delgado, revelamos algumas nuances deste protocolo, o homem e o Mestre.

 

Nuno Delgado: entrevista com o Mestre

Nuno Delgado, uma das figuras de vulto do judo nacional, iniciou a sua carreira como atleta da Associação de Judo do Distrito de Santarém, quando praticava judo na Casa do Benfica em Santarém.

Falámos com o Nuno, atleta e homem de causas, que acredita num mundo melhor e faz a sua parte, todos os dias.

Para Santarém, também há planos: “(…) diria que estão reunidos todos os alicerces para construir algo verdadeiramente diferenciador para o distrito. Confesso que a motivação do Presidente da ADJS, dá-me particularmente garantidas que as nossas intenções se vão materializar em breve.”

Nuno Delgado

Distinguido com o Grau de Comendador da Ordem de Infante D. Henrique pelo Presidente da República 2015, Nuno Delgado é licenciado em Ciências do Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana e detém uma pós-graduação pela Universidade de Bath, em Inglaterra. Conquistou a 1ª Medalha Olímpica na modalidade de Judo em Portugal, trabalhou na Comissão de Educação da União Europeia de Judo e foi responsável por todos os escalões Nacionais terminando como Chefe da Equipa técnica que conquistou a 2ª Medalha Olímpica do Judo Nacional no Rio Janeiro 2016. Mentor e Presidente da Escola de Judo Nuno Delgado, pioneira no apoio de cariz desportivo, cívico e artístico pela Fundação Gulbenkian, organizou a Maior aula de Judo do Mundo com ligação a Fundação Nelson Mandela.

Foi aqui, no nosso Distrito, que o Nuno iniciou a sua carreira. Que memórias guarda desses tempos?

N.D.: São memórias inesquecíveis, o meu primeiro clube Casa de Benfica de Santarém e mestres António Anjinho, juntamente com Jorge Barroca, foram uma segunda família, vivemos momentos marcantes que me inspiraram para uma enorme dedicação à modalidade, bem como deixaram fortes raízes de caráter. Foi um período em que a Associação estava no topo do Judo Nacional e existia uma grande competitividade entre os clubes do distrito, eu beneficiei muito dessa dinâmica, participámos em estágios e provas de grande nível ibérico. Foi um período decisivo para toda a minha formação como desportista e como cidadão.

Conheceu a AJDS nessa altura, mas hoje continua com uma relação próxima à nossa associação. Como avalia a evolução da AJDS? Que balanço faz?

N.D.: Como disse anteriormente, a ADJS viveu períodos dourados da sua atividade na minha juventude, que formaram uma geração de técnicos, desportistas e dirigentes que de seguida, no início do milénio, levaram a Associação a ser uma das referências nacionais do país logo a seguir a Lisboa e Coimbra. Existiu simultaneamente um protocolo internacional com Cuba muito importante. Contudo existiu um êxodo natural de muitos desses agentes, bem como uma evolução natural da “concorrência” de outras associações que cresceram bastante, hoje apesar da ADJS continuar a ter dos melhores atletas do País como é caso de Yahima Ramirez e Patrícia Sampaio (melhor atleta feminina do ano 2019, eleita pela Confederação Portuguesa de Desporto, do qual faço parte do júri), o atual paradigma é a massificação dos clubes e de técnicos que podem assegurar o crescimento necessário nos escalões de formação e do desporto não federado de índole escolar.

Com uma ligação tão próxima, para quando uma Escola de Judo Nuno Delgado no Distrito de Santarém?

N.D.: É verdade que ainda não existe uma Escola de Judo Nuno Delgado no distrito. Contudo sempre existiu atividade da minha escola em estreita parceria com a ADJS, desde 2011 que estive na génese do estágio Internacional Budo Spirit em Ferreira do Zêzere, fruto de uma parceria com Autarquia, Clube dos Marinheiros e ADJS. Este evento é uma referência no distrito e já fez nascer grandes campeões com a Patrícia Sampaio. Desenvolvemos ainda, com um Mecenas que angariei no âmbito da Maior Aula de Judo do Mundo, um projeto escolar que ainda respira vitalidade. Resumindo diria que estão reunidos todos os alicerces para construir algo verdadeiramente diferenciador para o distrito. Confesso que a motivação do Presidente da ADJS, dá-me particularmente garantidas que as nossas intenções se vão materializar em breve.

Qual a importância do Protocolo de Cooperação celebrado entre a Escola de Judo Nuno Delgado e a AJDS?

N.D.: No seguimento da resposta anterior, o principal objetivo é fazer algo diferenciado e estrategicamente vocacionado para um futuro a longo prazo. Eu pessoalmente gosto de projetos estáveis, a longo prazo, com equipas bem estruturadas. Esses foram os requisitos que estiveram na origem de um protocolo que veio acrescentar “músculo” a intenções anteriores da ADJS. Acima de tudo existe a preocupação de construir uma estrutura de apoio a projetos escolares com dimensão desportiva e social, bem como qualificar técnicos e professores de educação física do distrito. Eu particularmente gosto de dar ferramentas, ou seja, ensinar a pescar, e não apenas oferecer o peixe (leia-se o conhecimento e experiência pedagógica e de Judo que adquiri ao longo dos últimos anos por todo o planeta). A Escola de Judo desde 2009 que testa modelos de intervenção cívica em diversos municípios, sendo que neste momento podemos trazer muita credibilidade e eficiência a um distrito que é um diamante em bruto com muito potencial para explorar nesta dimensão da modalidade. Estamos todos muito entusiasmados com este projeto.

A Escola de Judo Nuno Delgado, a AJDS e o Município de Torres Novas também têm intenções de levar o Judo além-fronteiras (mais concretamente a Cabo Verde). Quer revelar um pouco desta cooperação?

N.D.: Estamos claramente a piscar o olho à internacionalização dos nossos projetos e Cabo Verde desde a conquista da Medalha Olímpica de Sydney, que faz agora 20 anos, tem feito um desenvolvimento muito interessante, contando já com atletas olímpicos. Queremos, em formato de cooperação e dentro do quadro da intervenção da cidade de Torres Novas estender o nosso Know How para o arquipélago das ilhas da Micronésia. É um casamento feliz para mim uma vez que tenho raízes Escalabitanas e Caboverdianas que se unem também nesta iniciativa. A aposta é a exportação do nosso modelo de intervenção cívica e desportiva e na qualificação dos quadros técnicos desta jovem federação.

Sabemos que não prevê o futuro, mas qual a sua visão e expetativa para os Jogos Olímpicos?

N.D.: É um facto que o futuro é imprevisível e muito menos num contexto que nunca vivenciamos, contudo, o trabalho do alto rendimento desafia-nos a preparar o futuro que queremos que aconteça e nesse sentido minha visão é muito otimista. Partilho porquê, iremos ter um fantástico Campeonato da Europa de Judo em Lisboa, prova rainha de Lisboa Capital Europeia do Desporto e última prova de qualificação para a competição olímpica de Judo. Será seguramente uma enorme vantagem para a nossa seleção olímpica que conquistou a última medalha portuguesa com garra de Telma Monteiro e que conta ainda com o Campeão Mundial em título Jorge Fonseca. Acredito que poderemos fazer algo histórico, que seria ter mais do que uma medalha, ou o mais alto lugar do pódio. No que diz respeito ao evento em si, estou certo de que não serão uns jogos normais, surgirão muitos desafios, muitos obstáculos, mas seguramente muitas surpresas. Os Jogos Olímpicos têm o poder de celebrar o melhor que a humanidade tem e a capacidade de superação dos seus intervenientes vai nos trazer um espetáculo desportivo e cultural inédito, bem como novos ensinamentos para a humanidade.

Se formos ao seu site oficial, na secção “Performance Global”, vemos em destaque uma frase de Manuel Sérgio, O Homem é um ser em movimento para a transcendência. O treino para a vida faz de nós campeões, mas como?

N.D.: “O como” tem sido a minha jornada pessoal, enquanto criança, desportista e cidadão, vivi à procura dos meus limites, como todos, ultrapassando barreiras e limitações pessoais e procurando-me recriar todos os dias, essa é a essência da humanidade. A única forma que temos para explorar esse impulso de sobrevivência que é o desempenho, é através do treino. O meu grande Mestre, o professor Jorge Araújo teoriza que “tudo se treina” começando pelas emoções. O professor Manuel Sérgio influenciou-nos a todos, clarificando que o universo do treino não é estritamente fisiológico e que estamos fundamentalmente numa dimensão das ciências humanas e da intencionalidade. De forma sintética dira que tal como as Artes Marciais nos ensinam, o nosso desempenho pleno é ser Espírito, Corpo e Mente num só ato. Todos temos o potencial de sermos campeões e de dominar o nosso desempenho, eu em particular tenho-me dedicado a mentorizar atletas, técnicos, professores, empresários e empreendedores de todos os sectores para com estes ensinamentos.

Estamos numa altura em que os pais são confrontados com inúmeras escolhas para os seus filhos, em termos de atividades. Porque é que devem escolher o Judo?

N.D.: É importante dizer que neste momento a prática do Judo desportivo está condicionada e que não é permitido, aos escalões de formação, o contato físico generalizado que carateriza essa dimensão do Judo, nem tão pouco a competição nos moldes que conhecemos. Dito isto, paradoxalmente ou não, é a altura que mais recomendo a prática do Nihon den Kodokan Judo, nome completo da nossa arte marcial que inclui um grande número de atividades. Na sua génese o Judo (usando o termo popularmente simplificado) foi criado como método de educação eclética da população japonesa nas escolas com a sua vertente, física, estética, cultural, ética ou moral e de potenciação de um estado de saúde físico e mental, que contém uma infinidade de exercícios que estimulam o desenvolvimento de crianças e jovens num ambiente saudável, higiênico, seguro e moralmente estimulante. Esta crise é uma oportunidade de podermos mostrar a dimensão técnica e de defesa pessoal que dominamos, o condicionamento físico à imagem do crossfit e outras modalidades tão em voga, bem como a coordenação, equilíbrio, flexibilidade e mindfulness do Yoga. E tudo isto envolvido num ambiente de desafio moral, ético e filosófico que o judo estimula. Efetivamente apenas não poderemos fazer as lutas corpo a corpo de toda riqueza que o judo tem para oferecer. Na minha escola decidimos dar nome a esta forma de expressão do Judo que teve o meu cunho pessoal, CrossBudo, contudo todas as escolas têm propostas normalizadas pela Federação e respetivas Associações que nos dão a descobrir uma cereja em cima do bolo, que vem colmatar as necessidades de milhares de crianças em confinamento. Seremos uma mais valia para combater a hiperatividade, a desconcentração e falta de coordenação, mobilidade, bem como a autoestima e interação social, maleitas muito comuns deste longo confinamento. Se ainda não se sentirem convencidos, desafio-vos a verem os vídeos tutoriais da nossa Escola e das diversas propostas de prática para este período covid.

A responsabilidade social ocupa uma fatia generosa dos seus projetos. É uma missão que lhe é querida?

N.D.: Quando criei a Escola, tinha como leit motiv levar os mais profundos ensinamentos do Judo de forma pragmática, assim tornava-se imperativo ter um modelo que pudesse chegar a todos “chave na mão”. Ao longo da nossa atividade fomos confrontados com a dura realidade da desigualdade social, rapidamente percebemos que teríamos de explorar soluções de sustentabilidade para chegar a estas comunidades mais frágeis socialmente e que menos acesso tinha a esta prática. Desafiei as mais prestigiadas instituições de forma pioneira a apoiar o desporto e judo em particular e desta forma a entrar naquela que chamo a dimensão arco íris, quero com isto dizer, criar condições para que os menos favorecidos tenham condições similares de acesso esta prática transformadora. E assim a Fundação Gulbenkian, Fundação EDP, Jerónimo Martins bem como o Município de Lisboa deram-nos força para implementar algo experimental e inovador. Formar Campeões para a vida tornou-se assim uma missão mais completa e levou-nos a ser reconhecidos pela Fundação Nelson Mandela e a União Europeia de Judo. Passados mais de 11 anos o nosso projeto utópico hoje é uma realidade em 4 municípios chegando a um universo de cerca de 4000 crianças gratuitamente e no âmbito do seu percurso escolar.

 Se não fosse judoca, o que poderia ter sido o Nuno Delgado?

N.D.: Se não fosse judoca…. Não sei o que poderia ter sido, mas estou certo de que seria um formador, um educador. Essa é a energia que me move. Quero que a Escola seja verdadeiramente um espaço e uma comunidade que inspira campeões, não falo apenas do Desporto, as Artes também são fundamentais para se juntar as Ciências Naturais e Sociais que dominam os currículos e experiências dos nossos alunos. De certa forma vejo-me cada vez mais próximo desta função nesta fase de vida, sem nunca perder as minhas raízes judocas. O curso de desporto e arte que iniciámos no ano letivo passado, no agrupamento Azevedo Neves, com o apoio da Câmara Municipal da Amadora, teve a aprovação do Ministério da Educação e será um dos meus grandes desafios futuros. Conseguimos responder ao desafio do Senhor Ministro Tiago Brandão Rodrigues e ainda motivar o Senhor Secretário de Estado João Costa e a sua equipa a desbravar todas as barreiras administrativas para que em Portugal os alunos possam ter um ensino especializado em desporto desde o segundo ciclo.

 

Foto: Nuno Delgado

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