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Patrícia Sampaio e Igor Sampaio: grande entrevista!

Por 16 Julho, 2021 Sem comentários

Patrícia Sampaio e Igor Sampaio (com entrevista)

Os irmãos. A atleta e o treinador. Rumo a Tóquio 2020

Patrícia Sampaio é uma jovem de 22 anos. Mas uma jovem cheia de sonhos, sonhos esses que têm vindo a ser vividos em conjunto com o seu irmão e treinador, Igor Sampaio (atleta de Judo, árbitro de Judo e licenciado em Design).

A atleta vai representar a Seleção Nacional nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, na categoria -78Kg.

Patrícia Sampaio é atleta da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, clube que integra a Associação de Judo do Distrito de Santarém.

A atleta tem vindo a somar vitórias e a demonstrar o verdadeiro espírito do Judo, o valor do Judo feminino nacional, a orgulhar o seu clube de Tomar e o Distrito de Santarém.

Recentemente, em 2020 (10 de outubro), Patrícia Sampaio conquistou o 1º lugar no Campeonato AS Nacional de Seniores Jogos Santa Casa 2020, na categoria -78Kg. A 25 de janeiro do mesmo ano, já tinha conquistado a medalha de bronze no Tel Aviv Grand Prix 2020, na categoria -78Kg.

Em 2019, a atleta mostrou a sua garra e força e somou várias conquistas: medalha de ouro no Oceania Open de Perth – novembro; bronze nos Mundiais de Juniores 2019 em Marraquexe – outubro; ouro no Campeonato da Europa de Juniores Vantaa 2019  – setembro; 5º lugar nos Mundiais de Judo – Tóquio 2019 – agosto; título de Campeã da Europa Universitária – agosto; 5º lugar no Grand Prix de Budapest – julho; bronze no Grand Prix Tbilisi (Geórgia – março); 1º lugar na Taça da Europa de Juniores 2019 – março; bronze no Grand Prix Marrakech – março; medalha de ouro no Campeonato de Apuramento para a Seleção Nacional de Juniores – março; 5º lugar no Grand Prix Tel Aviv 2019 – janeiro.

Falámos com a Patrícia e com o Igor.

Numa longa conversa, atleta e treinador deixam as suas marcas, as suas memórias, os seus conselhos.

 

O que sente uma atleta quando sabe que está apurada para os Jogos Olímpicos?

Patrícia: Sente-se feliz. Realizada, porém, ainda não totalmente, uma vez que o objetivo não passa somente por participar, mas sim obter um bom resultado. Mas, mediante o ano que vivi, sinto que posso respirar de alívio e ficar orgulhosa de tudo aquilo que enfrentei e onde cheguei.

 

E o que sente o seu treinador?

Igor: Uma enorme leveza, momentânea. Euforia e uma aterragem, um “pés na terra” muito grande que nos remete tanto para uma chegada a um novo destino, como para uma nova partida. É um misto de sensações que se vai dissipando à medida que nos vamos aproximando dos Jogos Olímpicos!

A sensação tem tanto de assustador como tem de bonito. Por um lado, é o validar da nossa tarefa e escolhas de métodos, escolhas técnicas e emocionais enquanto treinadores. É o validar da forma como vamos acompanhando o atleta, é o validar de toda essa construção que se releva frutífera, quando a atleta alcança o patamar que idealizámos e que traçámos durante 4 ou mais anos. Essa é a parte bonita e pela qual muitos treinadores, eu incluído, trabalham todos os dias. Por objetivos grandiosos como este. A parte assustadora é quando chegamos lá e temos consciência do patamar aonde chegámos. É muito mais difícil mantermo-nos no topo, do que lá chegar.

Como tudo, é o equilíbrio que torna a vida mais interessante.

 

Chegar até aqui tem sido um percurso com muito suor e trabalho. O que destacam desse percurso?

Patrícia: Destaco os momentos muito baixos que me “deitaram (literalmente) ao chão”. Momentos esses que me obrigaram a ser mais forte, a procurar as minhas bases, a refugiar-me nas minhas raízes e a ter a certeza de que é isto que quero para o meu futuro. Não tendo tido muitas oportunidades de ter momentos felizes e medalhas em competições no último, destaco a força que tive e as maiores alegrias foram a superação e árdua recuperação que consegui realizar das lesões graves que tive.

 

A SFGP e a AJDS têm sido as vossas casas. O que sentem em relação às duas?

Patrícia: A SFGP é o meu clube do coração, onde nasci e cresci para o judo. É onde tenho parte dos amigos que considero família e que me ajudam diariamente a crescer. É uma instituição com quem temos laços muitos fortes e uma conexão que não morrerá, aconteça o que acontecer.

Consequentemente, o mesmo se dá com a AJDS. Sempre tentaram ao máximo valorizar-me, dar-me destaque e apoio. É um orgulho estar do seu lado e ajudar esta associação a crescer.

Igor: Não podemos dissociar o Clube da Associação. O carinho que tenho pelo Clube é extensível à Associação.

Cheguei à Gualdim Pais por volta de 1996, com 5 anos de idade. Aos 30 anos, ainda me encontro no mesmo clube, a treinar no mesmo tapete, a vestir as mesmas cores. Azul e vermelho. Com muitas provas dadas, tanto como atleta como árbitro e, há cerca de 8 anos, como treinador. O clube é algo que nunca conseguimos descrever numa palavra, frase ou entrevista. É algo que se vive diariamente, são anos e anos de história e a beleza reside nisto mesmo. Apenas quem vive e passa pelo clube consegue sentir isto. O clube são as pessoas. É muito mais do que as infraestruturas. Na Gualdim Pais, temos grandes condições para a prática da modalidade de Judo. Sentimo-nos em casa e isso é de um enorme valor.

A AJDS, como entidade reguladora e que supervisiona e alberga os clubes do Distrito de Santarém, sempre teve um papel fundamental em todo este processo. A Patrícia começou por competir em provas da AJDS, no escalão de Iniciação, e foi aí que ela tomou o gosto por competir. Um primeiro passo nesta caminhada que já vai longa e que está, agora, nos Jogos Olímpicos. A AJDS será sempre a casa da Patrícia!

 

Como é um dia normal de treinos?

Patrícia: Atualmente, em contexto de COVID e de férias escolares, o dia centra-se em treinos bi-diários, recuperação, fisioterapia e descanso. Fora isso, haja os compromissos que houver, tenho diariamente dois treinos de cerca de 2h (ginásio e judo), de segunda a sexta-feira, e um ao sábado.

Igor: Varia um pouco, consoante o ciclo em que a Patrícia se encontra. Quando está em treinos, em estágios, ou treinos de campo, é sempre privilegiado o treino de Judo, o treino técnico-tático. Durante todo o ano, faz 2 treinos por dia. Nos estágios, maioritariamente, 2 treinos de Judo e, por vezes, um terceiro (físico, de ginásio, complementando sempre com treino técnico de Judo). Num dia normal de período escolar, mantém os treinos bi-diários: começa o dia com um treino de ginásio em Lisboa, em virtude de lá se encontrar a estudar no Ensino Superior; ela faz sozinha este treino, de forma autónoma; normalmente, faço-lhe chegar estes treinos por via digital; normalmente ao final da semana, quando a Patrícia vem a Tomar, tem dois treinos de ginásio que eu acompanho pessoalmente. Também tem, a par de todos estes treinos, os de Judo, nos mesmos moldes. À segunda-feira, por vezes, consegue treinar em Tomar, na Gualdim pais, à terça e à quinta-feira, tem treino de Seleção. À quarta, treina por norma em Lisboa, num clube com quem temos parceria. Noutras alturas, também treina noutros países, quando se desloca para campeonatos e provas internacionais.

 

Muitos cuidados com a alimentação, sono e outros aspetos?

Patrícia: É imprescindível. Estou num nível em que todos querem muito ser bem-sucedidos, todos treinam muito. Por isso, todos os pormenores contam. O sono é fundamental para a recuperação de treinos tão intensos, inclusive uma sesta entre os treinos, quando possível. A alimentação também é muito importante, especialmente num desporto com categorias de peso. Comer não só saudável, como também as quantidades adequadas a cada um, aliado a suplementação. Neste momento, sou acompanhada por uma nutricionista e uma psicóloga, da equipa do comité olímpico de Portugal.

Igor: Todos os cuidados envolvem uma máxima recuperação dos treinos que são bastante intensivos e provocam algum stress. Por isso, é imprescindível ter uma série de cuidados, para ajudar a mente e o corpo a recuperar desse stress. A nutrição e o sono são tão importantes como o treino em si: 9h de sono é o ideal. Nem sempre é possível, mas temos que ter noção de que por cada hora que perdemos de sono, aumentamos mais os riscos de lesão; existem alguns estudos científicos sobre isso mesmo. Quando não conseguimos descansar as 9h, procuramos fazer uma hora de sono à tarde. As horas de sono são altamente controladas. Até porque o estado de espírito da pessoa também é muito moldado pelo descanso que ela faz.

A nutrição tem um papel fundamental em qualquer desporto, mas na nossa modalidade ainda se torna mais importante, por termos categorias de peso. O peso é medido. Temos o cuidado de não andar muito acima dos 5% do peso da categoria em que a atleta compete. Há alterações hormonais e fases que não o permitem ou não tornam esse controlo fácil, mas damos o nosso melhor todos os dias. A Patrícia nunca falhou uma prova por excesso de peso e nunca prejudicou qualquer treino ou preparação por falha de nutrição.

A Patrícia gosta bastante da área da nutrição (aliás, era mesmo para seguir esta área e acabou por seguir Jornalismo) e tem mesmo muito cuidado com o controlo nutricional.

O princípio da Patrícia foi sempre este: a alimentação saudável. Se o que metermos no prato não for o correto, não existem milagres nem nenhum suplemento que elimine essas falhas. A prioridade é, mesmo, a faca e garfo. Depois, os suplementos vitais dão a sua ajuda. Mas a nutrição é a base.

 

Imaginem que uma criança diz aos pais “Quero ser como a Patrícia: fazer Judo e ir aos Olímpicos”. Qual o percurso que aconselham aos pais e que recomendações é que deixariam?

Patrícia: Nunca recomendaria a uma criança a querer ser como eu. Quero que elas ambicionem dar o melhor de si e ser melhor que elas mesmas a cada dia. Esse é um dos princípios do judo. Mas seria uma felicidade imensa se me vissem como uma referência, no desporto e além disso.

Recomendo apenas que promovam desde cedo a prática de desporto às crianças, se possível o judo, claro, porque permite um grande desenvolvimento motor e intelectual das crianças, transmitindo também bons valores e ensinamentos para o futuro.

Igor: Primeiro que tudo, só que um jovem reconheça a Patrícia Sampaio, enquanto atleta, já será um grande passo. Temos visto o reconhecimento pelos grandes nomes do Judo a ser mais frequente, o que tem sido muito positivo. As crianças precisam de ter modelos, de querer ser como alguém, para que quando cheguem à individualidade da adolescência se possam moldar aos seus modelos de referência e construir o seu caminho. Um caminho marcado pelo trabalho, pelo treino. Para que o seu nome também venha a inspirar futuras gerações.

A primeira e maior recomendação que deixo aos pais é que deixem as crianças gostar da modalidade. Pode parecer uma coisa muito básica, mas é essencial. É preciso deixar criar laços, dar tempo com a modalidade.

O Judo é altamente complexo e completo ao nível físico e emocional.

Por outro lado, devem dar tempo aos filhos, para que eles vivam cada etapa no seu tempo. Em casa, em contexto familiar, não devem apressar nem interferir nas metodologias e formatos de ensino do treinador. E muito menos contradizer o treinador (e isto, em particular na adolescência, leva à desistência, pois o jovem vê-se numa espiral muito confusa).

Quando o atleta pede mais, os pais devem dar soluções. “Não temos dinheiro para ires àquele estágio, mas temos uma solução”; “Podes ir ao treino, mas deves reorganizar a tua rotina de estudo e lazer”.

Muitas vezes, o treino acaba por potenciar um melhor desempenho e foco na parte académica. A parte académica e a desportiva combinam. Não só combinam, como se complementam. Por norma, um bom aluno é um bom atleta e as coisas andam de mãos dadas. Na Seleção Nacional de Judo, temos grandes exemplos, em áreas como a Medicina, Gestão, Jornalismo, Engenharia…

A Patrícia é exemplo disso: está a terminar o Ensino Superior e vai aos Jogos Olímpicos.

Aos pais, aconselho que deixem os seus filhos falhar, para que aprendam a reorganizar-se em situações futuras. Isso fará com que sejam mais maduros e que, em adultos, sejam capazes de solucionar as coisas mais básicas da vida.

 

Que conselho deixam a todos os atletas que sonham com uma participação nos Olímpicos?

Patrícia: Trabalhem afincadamente, mas nunca se esqueçam de se divertir e aproveitar o processo. É uma carreira relativamente curta e, apesar do profissionalismo e seriedade que requer, temos de ser felizes para podermos dar tudo de nós.

Temos de gostar do desporto e abraçar o processo de nos tornarmos os campeões que tanto ambicionamos.

Igor: Quero que saibam que vai exigir um enorme espírito de sacrifício, tomadas de decisão que não vão agradar muitas das vezes (por exemplo, entre lazer e treinos). Vão ter que trocar muitas vezes o que sabe bem pelo que faz bem. Isto será uma constante na vida, se quiserem pisar o maior palco que existe.

Num sonho, idealizamos que estamos lá um dia. Um objetivo já é algo que nós primeiro sonhamos, mas já traçámos um plano concreto e estamos a cumpri-lo. Cumprir um plano para estar nos Jogos Olímpicos envolve uma batalha muito dura e longa, de vencer pensamentos de desistência (por se tratar de um enorme objetivo, surgem cargas emocionais muito elevadas). Vão ter que superar esses momentos e ter ajuda e acompanhamento a vários níveis. Têm que viver para esse objetivo (Jogos Olímpicos). A vossa vida, naquele momento, terá aquele único propósito. Mas valerá a pena. Valerá todos os segundos. Tomar sempre a decisão certa, a decisão que vos vai aproximar mais um pouco dos Jogos Olímpicos.

Tive paciência. É preciso ser muito paciente, quando trabalhamos num objetivo e surgem percalços, mas não podemos ficar presos nesses momentos. Temos que ver para além deles. Temos que confiar no processo que delineamos, nas pessoas que nos guiam e acreditar que esse processo nos vai levar aonde desejámos.

É isto que têm que fazer.

Outro grande conselho que deixo é que usem e abusem da imagética. Que diariamente se coloquem na posição onde querem estar no futuro, que diariamente se vejam a ganhar, a participar. Imaginem-se lá. Isso torna o dia mais fácil, pois ao imaginarem o que querem, vão conseguir tomar as decisões certas com base num momento real, que está na vossa cabeça, que estão a viver e a visualizar. A imagem da conquista. Se esta imagem estiver presente, se todos os dias fizerem este exercício mental, é mais fácil cumprir as tarefas diárias que vos vão colocar lá. Façam isso, divertindo-se sempre e encontrando o gosto por tomar as decisões que vos vão colocar lá.

Quando ficarem felizes por terem decidido automaticamente pelo treino em virtude do passeio ou lazer, então chegaram lá.

E nada vos pode parar. É esse o caminho certo!

Fotos: Patrícia e Igor

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